José Saramago 90 Anos

"Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar"

Saramago: 90 anos

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Mário Cláudio

As comemorações dos noventa anos que José Saramago cumpriria, há dias, se a morte entretanto o não tivesse levado, forneceu pretexto a aquilatar da natureza da marca que o romancista deixou, e não apenas na história da literatura portuguesa como na nossa mentalidade de ontem, de hoje e amanhã. A singularidade de ter sido Saramago galardoado com o Prémio Nobel, e objecto da controvérsia que por regra se estabelece em torno da atribuição, concorreria para uma análise do homem, e da obra, empreendida a uma luz que até então nos não fora proporcionada. E o que sobreleva de tal reflexão nem sempre se mostrará lisonjeiro para o retrato da nossa cidadania, e para o carácter da nossa república das letras.

Conceitos ou termos como “estilo”, “intervenção” e “polémica” não se separam da leitura de José Saramago, e abundam no estudo que sobre ele se vem efectuando. Por outro lado a estatura do romancista, internacionalmente reconhecido e presenteado, estimularia inúmeros sujeitos, até à altura indiferentes à criação romanesca, a quererem averiguar o que se passava com tamanha notoriedade. E logo estranhariam os desprevenidos um módulo narrativo que no plano formal não surgia do nada, conformando ao invés uma estética a que tão-só os grandes leitores, familiarizados com uma modernidade que não pactua com os códigos escolares, detinham real acesso. Daí que assistíssemos ao pacóvio escândalo das virgens prudentes, as quais, confundindo por exemplo o uso de pontuação convencional com a boa gramática, se precipitariam de imediato a tocar a rebate, acusando o autor de Ensaio sobre a Cegueira de não saber escrever.

Mas não se esgotaria nisto a pedrada no charco, vibrada por Saramago, e resultante do desassombro de quem estatui as suas convicções contra o sectarismo dos tontos, dos beatos, e dos hipócritas. Em época anterior e de menos alta febre aquisitiva, ocorrera já idêntico fenómeno, se bem que mais discretamente, mas em termos que denunciavam já a nossa pequenez. O sucesso de Quando os Lobos Uivam, de Aquilino Ribeiro, ficaria a dever-se também a um choque imprevisível, mas sem que no autor se manifestasse semelhante sobressalto dos da ignorância, isto porque quem então arrecadava livros não se limitava a encaixá-los na estante. Na era do consumo desenfreado, essa que caberia à emergência do escritor de Levantado do Chão, e na qual todo bicho-careta se arrogava a dignidade de leitor por poder comprar livralhada, a verdadeira dimensão da iliteracia patentear-se-ia assustadora, e sem remédio à vista.

Não faltaram a José Saramago os burocratas pátrios, e se não bufos de novas polícias secretas, agentes fidelíssimos da estupidez. E valerá a pena assinalar aqui que não se eximiria o ensino oficial a emprestar a sua mãozinha à boçalidade campeante, obrigando legiões e legiões de adolescentes a desbravar aquilo que a ampla maioria dos professores dificilmente entendia. Penalizados por um contexto assim, e na mobilidade das filas de volumes que ocupam as prateleiras das bibliotecas privadas, a obra brilhantíssima de Saramago aguardará por certo uma terceira, ou uma quarta, geração de bisnetos e trinetos portugueses capazes de o homenagear com a inteligência normal que um artista a sério sem dúvida merece.

Ler mais: http://expresso.sapo.pt/saramago-90-anos=f772429#ixzz2ET5feMxF
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This entry was posted on 8 de Dezembro de 2012 by .

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